Go x Xadrez, por Bruno Sérgio Veras de Morais

Go x Xadrez, por Bruno Sérgio Veras de Morais (nick KGS: Magista).

A prática do jogo de Go melhora o desempenho dos jogadores de Xadrez? É uma questão freqüentemente apresentada em textos sobre os dois jogos. Alguns enxadristas afirmam – categoricamente – que sim.

Apresento ao leitor algumas características, semelhanças e diferenças entre Go e Xadrez. A distinção se faz necessária e obrigatória. Assim poderemos antever (fundamentado em fatos) a correlação entre a prática de Go e a melhoria de desempenho nas partidas de Xadrez jogadas pelos enxadristas que também jogam Go.

Os jogos apresentam diferentes objetivos. Como sabido, o Go é uma luta por domínio territorial (e eventualmente a captura de peças – as pedras). Onde a busca pelo cerco (tomada de território) fica bem caracterizada durante todo o desenvolvimento da partida. O Xadrez é um jogo de tomada de poder (representada pelo xeque-mate ao rei). Uma partida será perdida (mesmo com grande domínio territorial) se o rei for atacado e não puder ser defendido.

O Xadrez cada lado possui no início da partida um conjunto de peças. Mas as peças possuem forças diferentes em função da sua mobilidade (exceção ao rei, que possui movimento limitado a uma casa por vez, mas é a peça mais importante do jogo) que resulta em poder de ataque e defesa. No Go, todas as peças são iguais. Mas a importância de cada pedra decorre de sua posição, função e o momento da partida.

Outro ponto a destacar: ambos possuem fases de desenvolvimento – abertura, meio jogo e final. Mas possuem relação material inversa. O Xadrez começa com todas as peças e, em geral, termina com poucas peças presentes no tabuleiro. O Go inicia sem nenhuma peça sobre o tabuleiro e, em geral, termina com uma grande quantidade de peças.

O jogador de Go realiza um lance colocando sobre o tabuleiro uma pedra, sempre que seja sua vez de jogar. No Xadrez, o jogador movimenta as peças e eventualmente coloca uma peça em jogo (promoção de peão). Nos dois jogos a captura da peça adversária é permitida – porém no Xadrez, em alguns casos a tomada é obrigatória.

No Xadrez as peças ocupam as casas formadas pelo cruzamento de linhas. No Go, as pedras ocupam os cruzamentos das linhas.

O Go possui poucas regras revelando a uniformidade na manipulação das peças. As regras do Xadrez evidenciam: a multiplicidade e exceções de movimento das peças. Alguns exemplos: o roque (pequeno e grande) – cada jogador movimenta uma peça de cada vez, mas o roque é um lance realizado com duas peças; o movimento de peão que quando movido pela primeira vez pode avançar duas casas; (e o caso do “en Passant” – quando um peão em sua casa de origem anda duas casas, de uma só vez, e se coloca ao lado de um peão adversário, este pode capturá-lo como se houvesse simplesmente andado uma casa.).

A teoria de Go recomenda que o jogador deve buscar controlar os cantos, em seguida as laterais e ao final o centro. No Xadrez, a teoria recomenda lutar, permanentemente, pelo controle do centro (o pequeno e o grande centro) em todas as fases do jogo, pois dominar o centro é um importante fator estratégico (e em alguns casos tático).

No Go é permitido aos jogadores “passar”, o que pode resultar no encerramento imediato da partida (em geral, com um ganhador e um perdedor). No Xadrez é obrigatória a realização do lance, quando um jogador fica impedido de realizar um lance a partida está empatada.

A vantagem material, a vantagem em desenvolvimento, a forma como as peças estão relacionadas, a ordem das jogadas, a influência das forças de ataque e defesa, os movimentos obrigatórios, formas de ocupação de território, a importância de certas regiões do tabuleiro, o sacrifico de peças e muitos outros temas poderiam ser desenvolvidos para evidenciar a complexidade dos jogos, suas semelhanças e diferenças.

Os fatos apresentados evidenciam que os jogos possuem fundamentos diferentes, que resultam em problemas estratégicos e táticos distintos – embora existam pontos convergentes. Podemos afirmar que são de certo modo complementares.

Assim, ouso afirmar (o neófito sempre é ousado…): o enxadrista ao jogar o Go desenvolve novas formas de pensar, analisar os problemas e situações criadas durante a partida. E, conseqüentemente, aperfeiçoa sem perceber a sua forma de jogar o Xadrez. Na minha opinião, os mesmos benefícios são obtidos pelo jogador de Go que aprende a jogar o Xadrez.

Alan Yoshida

Programador, viciado em filmes, series, hqs, mangas, animes, jogos de tabuleiro e PC Gamer.

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